A Ilha do Medo de Scorsese é uma loucura
Look back in anger: Leo na Ilha do Medo
No meio de toda a agitação pré-Oscars (e no auge da temporada-lixo que vai de janeiro a maio, onde os estúdios descarregam quase tudo que não conseguiram lançar no ano anterior) começam a aparecer os primeiros filmes interessantes de 2010. Quietamente, a Paramount passou a última semana exibindo Shutter Island/ Ilha do Medo em sessões especiais em LA e NY. Agora, vendo o filme afinal, até entendo o por que da decisão de move-lo de 2009 para 2010: a sombra imensa de Avatar não daria espaço para muita coisa, ainda mais uma sombria homenagem ao cinema da paranoia dos anos 1950 como este inusitado filme de Scorsese.
Um pouco de pano de fundo: a primeira encarnação de Shutter Island, uma adaptação do livro homônimo de Dennis Lehane sobre os mistérios de um hospital psiquiátrico em meados do século passado, deveria ter sido dirigida por David Fincher e estrelada por Brad Pitt e Mark Wahlberg. Quando os três foram cuidar de outros projetos, o roteiro (de Laeta Kalogridis, que também assina The Dive, o possível novo projeto de James Cameron) foi enviado a Martin Scorsese. A Paramount não esperava que ele dissesse sim – Marty parece interessado em obras mais amplas, quase épicas. Mas ele sentiu uma “identificação imediata” com o protagonista, Teddy Daniels, um agente federal investigando o misterioso desaparecimento de uma paciente no sombrio asilo/penitenciária do título. (Depois que vocês virem o filme ou lerem o livro certamente ficarão intrigados com essa empatia…)
Com seu atual muso Leonardo di Caprio no papel de Teddy (que seria de Brad Pitt ) e Mark Ruffalo no de Chuck, parceiro de Teddy ( que seria de Wahlberg), Scorsese passou quatro meses em 2008 filmando Shutter Island, a maior parte num hospital psiquiátrico abandonado em Medfield, Massachsetts.
O resultado é um filme sobre o qual quanto menos eu falar, melhor. O que posso dizer: como ele mesmo diz, o projeto “começou como entretenimento e acabei transformando em outra coisa, como sempre.” O entretenimento seria o thriller em si, o famoso jogo de gato e rato que esperamos num policial - quem fez o que, e como, e por que. A “outra coisa” é um estudo sobre o clima emocional dos anos 1950, a era da paranóia, do medo institucionalizado, dos avanços da psiquiatria e da farmacologia psiquiátrica convergindo com as batalhas ocultas da guerra fria. Scorsese enquadra tudo isso no universo restrito de uma ilha ao largo de Boston, amplificando o sentimento de claustrofobia com um espetacular uso da montagem (Thelma Schoonmaker, de novo), fotografia (o grande Robert Richardson), direção de arte (outro gigante, Dante Ferreti ) e música ( Robbie Robertson fazendo a curadoria de uma série de peças de eruditos do século passado – Cage, Ligerti e sobretudo Penderecki, cuja "Passacaglia" é a inesquecível assinatura musical do filme.)
Um “labirinto da mente”, como Scorsese diz, esta Ilha resolve um dos grandes desafios do cinema, a visualização do processo da loucura, com uma estética que é um terço Shock Corridor, dois terços Hitchcock anos 1940-50 e, no final, puro Scorsese.
Shutter Island /Ilha do Medo estreia dia 18 aqui nos EUA e 5 de março no Brasil.
Por Ana Maria Bahiana às 19h18















Leia este blog no seu celular

