UOL Entretenimento

07/03/2009

O (muito) que está em jogo com Watchmen

 

Menos de um ano atrás a Warner Brothers, estúdio líder de mercado nos Estados Unidos - 18.4% em 2008 - fez uma re-estrutura radical em sua cadeia de produção e aquisição. A recém criada divisão de filmes de arte e em língua estrangeira, Warner Independent, foi fechada (e nesse momento Quem Quer Ser um Milionário tornou-se um projeto órfão ou, no jargão da indústria, "renegade".) A New Line, produtora de filmes de médio orçamento (exceções: Senhor dos Anéis, Bússola de Ouro) que era distribuída pela WB, foi anexada à nave mãe apenas para que os projetos em curso pudessem ser concluídos sem dar prejuízo. A Picturehouse, divisão especializada em indies, também foi fechada.

Sobre todas essas decisões cirúrgicas pairava a sombra dupla do Cavaleiro das Trevas e da recessão. O primeiro era o mega-sucesso do ano, ultrapassando os recordes da tradição de arrasa-quarteirões de muitos dígitos - as franquias Harry Potter, Matrix- com que o estúdio sempre contara para custear as aquisições de projetos de baixo e médio orçamento.

Mas havia aquela outra sombra.... Numa apresentação para analistas financeiros, alguns meses depois da estréia de Cavaleiro das Trevas, Jeff Bewkes, CEO da Warners, respondeu à pergunta "o que podemos esperar depois de  Cavaleiro das Trevas?" com "mais Cavaleiro das Trevas." No final do ano, ao anunciar seus projetos para 2009 aos acionistas, Bewkes falou das recentes cirurgias corporativas e acrescentou mais uma: o número de filmes lançados por ano cairia de uma média de 45-47 para apenas 21 títulos em 2009. "A meta é reduzir os custos e, reduzindo a produção, aumentar a margem de lucro."

Neste momento, Bewkes e sua  equipe estão com os olhos colados nos relatórios de bilheteria de Watchmen, o primeiro grande lançamento da nova estrutura e o mais amplo - 3611 cinemas nos EUA, mais estréias simultâneas em todos os principais mercados internacionais - para um filme permitido apenas para maiores de 17 anos. As críticas tem sido misturadas demais  para serem consideradas boas, mas isso não tira o sono de ninguém. Para um filme como Watchmen, críticas são completamente irrelevantes.

As questões são outras. Será que a política de "menos filmes, mas maiores" funciona? Será que Watchmen tem apelo vasto o bastante para segurar um lançamento tão imenso? (Os primeiros relatórios de mercado indicam que são os homens entre 25 e 35 anos que estão segurando a bilheteria, muito à frente do público normal para este tipo de filme, os entre 17 e 25, jovens demais para terem a empatia com a graphic novel que Watchmen exige). Mulheres de todas as idades não estão se interessando.

Embora discutindo um tipo de devastação moral, cultural e política de outra era - 1985 - Watchmen pode entrar para a narrativa do cinema como o primeiro lançamento de um novo período marcado por depressão econômica e desejo de evasão  cujos contornos ainda não podemos ver inteiramente.

Com certeza, 2009 começa agora, com ele. E, acho, a primeira década do século 21 no cinema também se encerra com ele.

 

 

 

 

Por Ana Maria Bahiana às 14h18


06/03/2009

Academia quer o Oscar de Ledger de volta

A família Ledger recebe o Oscar dia 22/02. Agora, cadê?

 

Minha amiga Leslie Unger, a feroz (mas doce e eficiente) relações públicas da Academia, está começando a perder a paciência: a família Ledger ainda não entregou a estatueta que recebeu na noite do Oscar, em nome do melhor ator coadjuvante Heath Ledger. Na noite dos Academy Awards, todos os vencedores recebem estatuetas sem nome, identificadas apenas por números. A praxe é que os Oscars sejam encaminhados à Academia o mais breve possível para que os nomes sejam gravados e, em alguns casos especiais - como o de Ledger- encaminhados a quem tem o direito de posse.

Duas semanas depois da festa, tem uma estatueta faltando - justo a de Ledger. Leslie Unger já mandou dizer que espera que um representante da família Ledger entregue o Oscar na sede da AMPAs até o final do dia de hoje, para que a gravação seja providenciada. Depois, como as regras da Academia estipulam, a estatueta será entregue a Matilda Ledger, com Michelle Williams como sua guardiã até a maioridade da menina.

Como se sabe, os Ledger disseram para quem quisesse ouvir que iriam ficar com o prêmio e levá-lo de volta a Perth, cidade natal de Heath. E vocês notaram que eles não mencionaram Michelle uma única vez no discurso de agradecimento, não?

Isso é feio, gente. Tira a elegância da festa e a nobreza do prêmio, ainda mais nestas circunstâncias tristes.

Por Ana Maria Bahiana às 17h19


04/03/2009

CRISE É BOM?

Continuando a conversa de ontem: antes que a gente comece a soltar fogos de artifício pela imunidade da indústria cinematográfica à catástrofe financeira generalizada, é preciso se perguntar que tipos de filmes serão beneficiados por essa bonança. Sim, de fato, os dois primeiros meses deste ano marcaram um aumento do consumo de cinema, nos Estados Unidos, "sem precendentes na era moderna" segundo o New York Times: 16%, em plena crise. Sim, isso confirma o que é sabido desde a Grande Depressão, a Segunda Guerra e a Guerra Fria: que na hora do aperto uma fuga para a sala escura do cinema é a saída mais eficiente e barata.

Mas que filmes são favorecidos nessa hora? Basta olhar o cardápio que está nas telas nos EUA. Descontando os oscarizados, que já vão começar a entrar em curva descendente, temos uma comédia rasgada (Madea Goes to Jail), o filme do concerto dos Jonas Brothers, um thriller de ação (Taken), uma comédia romântica na linha chick flick (He's Just Not That Into You). Nada de muito diferente do menu habitual, vocês diriam. Certo. O diferente é que esse mesmo menu, três meses atrás, não aumentava o consumo em 16%.

Resumo: creio que o financiamento para filmes que não sejam light, despretensiosos e altamente comerciais vai secar. Os estúdios vão cerrar fileiras nos blockbusters, sequels e comix. Qualquer coisa além disso vai ter que se virar por fora, tendo ou não um nome conhecido envolvido. Os independentes já estão buscando novas formas de levantar seus projetos - Milionário foi bancado pela produtora do reality que é tema do filme - até porque os bancos estão cortando suas linhas de crédito para cinema. Como acontece nessa hora, estão surgindo novas empresas só para comprar -baratíssimo - as carteiras de projetos que estavam sendo financiadas pelos bancos. O que elas farão com esses projetos? Direto para DVD? Internet? Novos sistemas de distribuição?

Enfim, como diria Zé Ramalho traduzindo Bob Dylan, tá tudo mudado. Como isso nos afeta? O cinema do mundo inteiro está interligado. Seca dinheiro em Hollywood, seca em toda parte, e alternativas tem de ser buscadas em toda parte. Sem falar em como isso altera a qualidade e as escolhas que teremos em nossas telas, nos próximos meses e anos.

Por Ana Maria Bahiana às 09h30


03/03/2009

O VERDADEIRO OURO

Para que gastar tanto dinheiro (entre meio e sete milhões de dólares, dependendo da ambição e dos bolsos de cada um) numa campanha para prêmios?

Ego, em primeiro lugar. Ego é o que move a indústria, e afagar os egos dos "criativos" mantem bem azeitadas as engrenagens da usina.

Depois, mas não muito depois, dinheiro. Uma indicação para o Oscar é a melhor ferramenta de marketing internacional possível para um filme não-pipoca. Não é a toa que Benjamin Button é, desde o anúncio das indicações, o líder do box office internacional , onde já acumulou 116 milhões de dólares, bem próximo do que fez nos Estados Unidos (122 milhões de dólares).

E para os flmes em cartaz nos EUA na época dos prêmios, existe o fenômeno conhecido no meio como "Oscar push" : o empurrãozinho nada desprezível que todo filme que chega à reta final sente nos dias em torno do Oscar. O "difícil" (sem estrelas, made in India) Quem Quer Ser Um Milionário? pulou 195% na semana depois de seu triunfo, ficando atrás apenas da chanchadona Madea Goes to Jail (que delícia para um filme que custou 15 milhões de dólares:115 milhões já estão em caixa, só nos EUA). O "impossível" O Leitor (triste, tema espinhoso), deu um salto de 203% mais ingressos. Todos - Milk, Frost/Nixon, Dúvida- deram pulos no box office.

Na verdade, as semanas depois do Oscar tem sido a festa da uva na bilheteria americana. Depois de anos sem crescer, em algumas semanas o mercado americano teve um consumo 17% maior de ingressos, confirmando não apenas o apelo dos prêmios, mas, sobretudo, o velho adágio de que nada é tão bom para a indústria  quanto uma bela crise.

 

Por Ana Maria Bahiana às 15h01


02/03/2009

COISAS FOFAS

Em março de 2006 Annie Leibovitz fez esta foto para a capa da Vanity Fair:

A capa deu o que falar, etc. Agora, para a edição de abril, dedicada à comédia, Annie fez esta versão da mesma foto:

"Tom Ford" é Paul Rudd, e os modelos "sexy" são Jonah Hill. Seth Rogen e Jason Segel, todos da "companhia" de Judd Apatow. Tudo lindo mas... por que os collants? Os engraçadinhos não tiveram coragem, não?

E é claro que esta não é a capa...

Por Ana Maria Bahiana às 19h11


HOLLYWOOD CARAVANSERAI

Cartaz do filme indie AmericanEast, sobre a experiência de imigrantes do Oriente Médio nos Estados Unidos

Uma pergunta do Flavio nos comentários me fez olhar com mais vagar sobre um tema interessante: a presença do talento do Oriente Médio na indústria. Los Angeles é uma das cidades mais receptivas a imigrantes do mundo todo, e tem enormes comunidades iranianas, libanesas, afegãs, iraquianas, armênias, palestinas e egípcias, entre outras. Natural que essa conexão se fizesse, especialmente num momento em que, de um modo ou de outro, o Oriente Médio tem presença marcante nas telas grande e pequena.
Infelizmente, a maioria do talento levantino dramático pode ser vista com frequência apenas apanhando de Jack Bauer na série 24 horas. É uma realidade desconfortável – a maior parte das ofertas de papéis é para terroristas fanáticos e cruéis. Felizmente, há um movimento crescente de recusa a esses papéis, como forma de protesto ao estereótipo.
E o “outro lado” – produtores, produtores de elenco, roteiristas, diretores – está ouvindo. Já existem agências especializadas em atores e atrizes do Oriente Médio, filmes como o indicado O Visitante, o independente Towelhead e, ano passado, O Caçador de Pipas, mostram a experiência levantina fora dos padrões (mesmo o comercial mas ótimo O Reino tinha bons papéis para “árabes” – na verdade dois atores palestinos, Ashraf Barhom e Ali Suliman como os dois policias que ajudam Jamie Foxx e companhia a pegar os bad guys).
Além da extraordinária iraniana Shohreh Aghdashloo (House of Sand and Fog, O Exorcismo de Emily Rose, A Casa do Lago) e do pioneiro Tony Shalhoub (americano filho de libaneses), tem se destacado a também iraniana Bahar Soomekh (Syriana, Missão Impossível III); o marroquino Omar Berdouni  (O Reino, Vôo United 93Body of Lies); o egípcio nascido em Glasgow Khalid Abdalla– o terrível terrorista de Vôo United 93 e o conflituado escritor de O Caçador de Pipas; o egípcio Sayed Badreya ( Saddam Hussein de W., de Oliver Stone);  e o iraniano Maz Jobrani, que esteve em A Intérprete e acaba de participar de um indie sobre a experiência levantina nos EUA, AmericanEast (Jobrani também tem uma troupe de comédia stand up só com iranianos e árabes: Axis of Evil).
Atrás das câmeras tem mais gente: os roteirista iranianos Hossei Amini (Jude the Obscure, Wings of the Dove) e Farhad Safinia (Apocalypto), o diretor de fotografia Darius Khondji (Evita, A Intérprete, Funny Games US) e o especialista em efeitos especiais Habib Zargarpour ( Mar em Fúria), todos iranianos.
E aí um filme indo-britânico ganha  os Oscars.... Tudo se conecta.

Por Ana Maria Bahiana às 13h50


01/03/2009

O CUSTO DA BOA VIZINHANÇA

Estas são Annette Bening e Alfre Woodward ladeando a atriz iraniana Fatemeh Motamed Arya, numa pose para a mídia de Teerã antes do seminário "Atuando em Cinema" que as duas atrizes norte-americanas estão ministrando hoje, como parte de um grande pacote de aproximação entre Hollywood e o prolífico e criticamente aclamado cinema iraniano. Além de Annette e Alfre, a comitiva hollywoodiana inclui , entre outros,Sid Ganis, presidente da Academia, minha amiga Ellen Harrington, curadora de exposições e eventos especiais da academia (devemos esperar uma mostra de cinema iraniano em breve, na sede da AMPAS...) e o produtor e ex-presidente da Universal, Tom Pollock.O grupo está esta semana em Teerã para uma série de palestras, oficinas e seminários sobre produção, marketing, financiamento, distribuição e roteiro - um marco histórico, e a primeira visita desta natureza desde a revolução islâmica de 1979.(Visitas individuais de atores e diretores já aconteceram, mas esta é a primeira comitiva oficial.)

Interpreto a visita tanto como um sinal tanto dos novos tempos sob a hégide de Barack Hussein Obama quanto como parte de um esforço maior da indústria norte-americana de realmente se integrar de um modo mais, digamos assim, orgânico, na comunidade cinematográfica internacional.

O esforço tem seu preço. As mulheres do grupo só podem ser vistas nos "trajes modestos" como os de Annette e Alfre na foto. E as autoridades iranianas exigiriam um pedido de  desculpas oficial da comitiva com relação aos filmes 300 e O Lutador por "ofensas contra o país" (O personagem de Rodrigo Santoro e a maldade generalizada dos persas no primeiro, o "Ayatolá" e o uso da bandeira do Irã no segundo). As desculpas ainda não vieram, mas a programação prossegue...

Por Ana Maria Bahiana às 14h01


Sobre a autora

Ana Maria Bahiana é jornalista e escritora, com uma carreira que cobre três décadas de reportagem e comentário de cultura no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet. Leia mais

Sobre o blog

Cinema, origem e espelho do que acontece na cultura do mundo. Comentário, notícias, críticas e todas as conexões que o cinema propõe - música, moda, estilo de vida.

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