O (muito) que está em jogo com Watchmen

Menos de um ano atrás a Warner Brothers, estúdio líder de mercado nos Estados Unidos - 18.4% em 2008 - fez uma re-estrutura radical em sua cadeia de produção e aquisição. A recém criada divisão de filmes de arte e em língua estrangeira, Warner Independent, foi fechada (e nesse momento Quem Quer Ser um Milionário tornou-se um projeto órfão ou, no jargão da indústria, "renegade".) A New Line, produtora de filmes de médio orçamento (exceções: Senhor dos Anéis, Bússola de Ouro) que era distribuída pela WB, foi anexada à nave mãe apenas para que os projetos em curso pudessem ser concluídos sem dar prejuízo. A Picturehouse, divisão especializada em indies, também foi fechada.
Sobre todas essas decisões cirúrgicas pairava a sombra dupla do Cavaleiro das Trevas e da recessão. O primeiro era o mega-sucesso do ano, ultrapassando os recordes da tradição de arrasa-quarteirões de muitos dígitos - as franquias Harry Potter, Matrix- com que o estúdio sempre contara para custear as aquisições de projetos de baixo e médio orçamento.
Mas havia aquela outra sombra.... Numa apresentação para analistas financeiros, alguns meses depois da estréia de Cavaleiro das Trevas, Jeff Bewkes, CEO da Warners, respondeu à pergunta "o que podemos esperar depois de Cavaleiro das Trevas?" com "mais Cavaleiro das Trevas." No final do ano, ao anunciar seus projetos para 2009 aos acionistas, Bewkes falou das recentes cirurgias corporativas e acrescentou mais uma: o número de filmes lançados por ano cairia de uma média de 45-47 para apenas 21 títulos em 2009. "A meta é reduzir os custos e, reduzindo a produção, aumentar a margem de lucro."
Neste momento, Bewkes e sua equipe estão com os olhos colados nos relatórios de bilheteria de Watchmen, o primeiro grande lançamento da nova estrutura e o mais amplo - 3611 cinemas nos EUA, mais estréias simultâneas em todos os principais mercados internacionais - para um filme permitido apenas para maiores de 17 anos. As críticas tem sido misturadas demais para serem consideradas boas, mas isso não tira o sono de ninguém. Para um filme como Watchmen, críticas são completamente irrelevantes.
As questões são outras. Será que a política de "menos filmes, mas maiores" funciona? Será que Watchmen tem apelo vasto o bastante para segurar um lançamento tão imenso? (Os primeiros relatórios de mercado indicam que são os homens entre 25 e 35 anos que estão segurando a bilheteria, muito à frente do público normal para este tipo de filme, os entre 17 e 25, jovens demais para terem a empatia com a graphic novel que Watchmen exige). Mulheres de todas as idades não estão se interessando.
Embora discutindo um tipo de devastação moral, cultural e política de outra era - 1985 - Watchmen pode entrar para a narrativa do cinema como o primeiro lançamento de um novo período marcado por depressão econômica e desejo de evasão cujos contornos ainda não podemos ver inteiramente.
Com certeza, 2009 começa agora, com ele. E, acho, a primeira década do século 21 no cinema também se encerra com ele.
Por Ana Maria Bahiana às 14h18






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