Dois filmes para (tentar) mudar o mundo


Quando ouço a expressão "mas é só um filme" eu tenho sérias dúvidas do quanto quem fala está sendo honestamente ingênuo. A esta altura do século 21, com mais de 100 anos de imagens em movimento tecendo e documentando nossa cultura e história, como fingir que "só um filme" não tem importância vital no modo como vemos e pensamos o mundo à nossa volta? Quantos conceitos (e preconceitos), "fatos consumados", impressões, ilusões e desejos não foram criados, plasmados, alimentados por filmes?
Não creio que um filme possa mudar o mundo _ mas acredito, e muito, em seu poder em trazer questões para o foco coletivo de atenção.
Dois filmes assim vão chegar às telas em breve. O primeiro, The Stoning of Soraya M., será exibido sábado no Festival de Cinema de Los Angeles e, uma semana depois, entra em cartaz nos EUA em circuito limitado (ainda não há previsão para o Brasil, mas fiquem de olho nos festivais do segundo semestre).

Obra de um jovem diretor americano de origem iraniana , Cyrus Nowrasteh, baseado no livro homônimo do jornalista franco-iraniano Freidoune Sahebjam e produzido pela mesma independente MPower que possibilitou, entre outros, A Paixão de Cristo de Mel Gibson, Stoning conta a história, horrivelmente verdadeira, de uma mulher de 35 anos, Soraya Manutchehri, mãe de 7 filhos, que, foi apedrejada até a morte num vilarejo do Irã, em 1986. O motivo? Uma falsa acusação de adultério levantada pelo marido, que, basicamente, queria se livrar da "esposa inconveniente" para se casar com uma jovem de 14 anos - sem ter que sustentar duas familias ou devolver o dote de Soraya. Freidoune, viajando pelo interior de seu país natal em meados dos 1980 para levantar o impacto da revolução dos aiatolás, literalmente tropeçou na história ao encontrar a brava tia de Soraya, Zahra Khanum (vivida no filme pela luminosa Shoreh Aghdashloo) que se recusava a participar da conspiração de silêncio de seus vizinhos.
Vencedor do prêmio de público em Toronto, The Stoning vem a calhar no momento em que belas mulheres de todas as idades saem às ruas do Irã para protestar uma bizarra "reeleição", e lembra a todos que, em vastas áreas do mundo, mulheres ainda são consideradas menos que nada, e que apedrejamentos como o que é mostrado no filme ocorrem ainda hoje, agora mesmo. (Você pode fazer alguma coisa: consulte a Anistia Internacional).
O segundo filme, o documentário The Cove, estréia dia 31 de julho nos EUA (de novo, fiquem de olho nos festivais do segundo semestre...) depois de acumular prêmios em vários festivais, inclusive Sundance e HotDocs. Com o fotógrafo do National Geographic Louis Psihoyos estreando na direção, The Cove começou como algo diferente, um projeto do especialista em golfinhos Ric O'Barry - o homem que inventou Flipper- sobre os danos que sua série de TV causou (O'Barry é,hoje, radicalmente contra o cativeiro e adestramento dos golfinhos e quaisquer mamíferos aquáticos).

No meio do caminho, numa cidade do Japão que parecia um paraíso de convivência humanos/espécies marinhas, Psihoyos e O'Barry descobriram algo medonho: uma enseada oculta, onde massas de golfinhos eram arrebanhados e ou feitos cativos ou massacrados para a indústria de enlatados (mesmo estando contaminados por mercúrio). O esforço para documentar o massacre - acobertado por toda a cidade, inclusive as autoridades - levou a equipe a mudar seu projeto e envolver profissionais tão variados quanto comandos especializados em missões secretas e técnicos em efeitos especiais da ILM, que criaram rochas falsas capazes de acomodar câmeras embutidas. (Você tambem pode fazer alguma coisa:a Oceanic Preservation Society diz como).
Antes que comecem a pipocar as historinhas na linha "mas isso é tão longe", "e os nossos problemas?", etc, eu digo: quem não é capaz de perceber o horror e a urgência destes dois dramas não tem sensibilidade para se mover com coisa alguma. Nem em casa, nem na própria rua, nem em sua cidade. Fronteiras, que nunca foram lá essas coisas além de conchavos políticos, hoje são tênues fiapos desses conchavos. Os oceanos e as mulheres estão em toda parte. Como a vida, e sua dignidade.
E o que mais gosto nos dois filmes: que são ótimos filmes, emocionantes e narrativamente excelentes, e não aquele coisa doutrinária e chata na linha "isso é bom pra você." Vejam, se tiverem coragem. E pensem.
Os trailers:
Por Ana Maria Bahiana às 15h32



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