UOL Entretenimento

09/10/2009

Cinema no mundo: mais saudável que em Hollywood?

 

 

Você sabia que Madagascar produz mais filmes do que o Brasil? Que o Japão produz mais filmes do que a França? Que  a Coréia produz mais filmes do que a Grã Bretanha? Estes são alguns dos resultados de uma pesquisa de dois anos do Instituto de Estatísticas da Unesco sobre o volume e padrões de produção, distribuição e exibição por país. São números altamente interessantes, que mostram a força da produção nacional em vários cantos do mundo, especialmente na Índia - líder em volume de produção com 1091 filmes por ano, passando largamente os EUA, em segundo lugar com seus 485 títulos. Com seus 872 títulos produzidos anualmente a Nigéria na verdade estaria em segundo lugar neste ranking, passando os EUA  – mas os "filmes" de Nollywood são todos em vídeo e distribuídos “informalmente”.

Volume é importante: mostra o vigor da demanda de cada mercado, e a saúde de suas estruturas de produção em sua capacidade de atender essa demanda. Mas volume, obviamente, não é tudo: os 485 títulos produzidos nos EUA são certamente mais vistos mundo afora do que os 1091 da Índia, colocando no diálogo a questão dos padrões de produção, dominação cultural e poderio da distribuição e marketing. 

Num momento em que as grandes máquinas de Hollywood estão, aparentemente, revertendo a um padrão de produção pré-1967 – só o mínimo denominador comum, com o máximo de empurração – é bom saber que há grandes espaços saudáveis pelo mundo afora….

 

Por Ana Maria Bahiana às 15h42


08/10/2009

TV ganha a disputa na Disney

E como terminou a novela do novo chefão Disney? Não com John Lasseter, o que representaria a volta do estúdio às suas raízes de animação, mas com Rich Ross, o jovem executivo que transformou o Disney Channel numa potência internacional. O que pode representar uma guinada na direção dos produtos que Ross desenvolveu em sua gestão: franquias como High School Musical e Hannah Montana, e uma adesão estrita ao público juvenil, reforçada pelo recente acordo com a Marvel.

E os filmes para quem tem mais de 18 anos, como ficam? Esses aparentemente serão responsabilidade da DreamWorks que, depois de muitas idas e vindas, fechou mesmo com a Disney a sua distribuição. Uma coisa é certa: Miramax é onde o futuro não está. O selo "de arte" do grupo Disney acaba de ser sangrado, seu orçamento para aquisições reduzido, operações concentradas com a nave-mãe, número de lançamentos cortado pela metade. "Não é mais possível recobrar o investimento com este modelo de negócios e este tipo de projetos", me disse um tailleur Armani dos mais bem informados e experientes.

Por Ana Maria Bahiana às 18h32


04/10/2009

O Homem Sério dos Coen: esperando Hashem

O Jó do subúrbio: Michael Stuhlbarg no novo filme dos irmãos Coen

Eu me lembro do momento exato em que "Onde os Fracos Não Tem Vez" terminou:  dei um pulo e comecei a aplaudir, automaticamente. Num ano que até então tinha se mostrado assim-assim, aquela era, para mim, a primeira manifestação concreta de que o talento, algo tão profundo e invisível quanto o divino, existia.

Tive exatamente a mesma reação no segundo em que "A Serious Man" chegou ao fim, com um corte seco e abrupto típico dos Coen. Com muito raras exceções, 2009 está sendo um ano de vacas top model (ou seja, anoréxicas) no front qualidade. Na enxutíssima hora e meia de seu novo filme, Joel e Ethan tinham resgatado, mais uma vez, minha esperança no futuro da sétima arte.

É filme de gente grande, de quem já passou dos 50 e, certamente, a obra mais pessoal dos irmãos. Com a calma e os calos que só tempo e distância dão, os Coens olham para o ambiente que os criou: uma comunidade judaica de classe média, num subúrbio qualquer do meio oeste norte-americano, em meados dos anos 60. Não lhes interessa a saudade, mas a exploração de seus mecanismos interiores, existenciais, filosóficos : eles provavelmente estão escondidos no personagem do filho adolescente da familia, agressivamente ausente de sua própria vida – a escola, os preparativos para o bar mitzvah, as aulas de hebraico -, refugiado numa nuvem de TV, maconha e rock 'n roll (a abertura do filme ao som de “Somebody to Love” do Jefferson Airplane, é de lamber os beiços).

Mas o garoto e sua irmã estão longe do centro das atenções: o homem sério do título é o pai deles, Larry (o maravilhoso ator de teatro Michael Stuhlbarg) um professor universitário cuja vida rigorosamente correta começa a desmoronar em câmera lenta aos 15 minutos do filme (A Serious Man tem um preâmbulo em iídiche, uma anedota sobre um casal e um velho visitante que pode ou não ser um dybbuk, um fantasma mal intencionado). As visitações de Larry são as de Jó: em rápida sequencia ele perde a mulher, a família, o respeito, a privacidade. Seu posto na universidade é ameaçado por cartas anônimas. Seu irmão, um vagabundo profissional, é preso. Larry quer achar um sentido em tudo – qual o plano de Hashem (O Nome, termo hebraico básico para Deus) para ele? Larry, como Jó, quer perseverar – e sua força interior é maior que a dos três rabinos que consulta, em vão.

Isto sendo um filme dos irmãos Coen, que ninguém espere epifanias místicas : o processo é mais importante que o resultado, as perguntas são mais preciosas que as respostas. Podem esperar, isso sim, um elenco maravilhoso, só de atores de teatro (muitos do Meio Oeste, onde "A Serious Man" foi rodado) a fotografia hiper saturada de Roger Deakins e um excelente uso das popsongs dos 60.

Por Ana Maria Bahiana às 22h26


Sobre a autora

Ana Maria Bahiana é jornalista e escritora, com uma carreira que cobre três décadas de reportagem e comentário de cultura no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet. Leia mais

Sobre o blog

Cinema, origem e espelho do que acontece na cultura do mundo. Comentário, notícias, críticas e todas as conexões que o cinema propõe - música, moda, estilo de vida.

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