Spike Jonze jura que é pura coincidência, e que não quer dizer, absolutamente, que alguns dos cineastas mais originais em atividade, hoje, estejam com falta de idéias. Mas o fato é que, entre este mes e março de 2010 (abril, no Brasil) veremos três versões de célebres livros infantis pelos olhares de três diretores extremamente autorais: Spike Jonze, Wes Anderson e Tim Burton.
Coerente com suas visões peculiares, os três escolheram três obras de três autores completamente “fora da caixa” da literatura infantil (não que literatura infantil seja açucarada por definição- de Andersen a Grimm, histórias para crianças são mergulhos perigosos no nosso inconsciente mais profundo… e sombrio). Jonze ,admirador há tempos do americano Maurice Sendak, escolheu o livro que vem fazendo a cabeça das crianças norte-americanas desde os anos 60: Where the Wild Things Are, uma obra tão poderosa e subversiva que, em seu lançamento em 1963, foi banida de várias bibliotecas escolares. Anderson, um dos americanos mais europeus que existem, ficou com Fantastic Mr. Fox, do galês, filho de noruegueses, Roald Dahl, famoso pelo seu humor sarcástico e fina ironia. Tim Burton, que vive, ele mesmo, numa espécie de universo paralelo, optou pelo psicodélico Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll.
Ainda temos uns bons cinco meses até poder ver o que Burton imaginou para sua Alice, mas, curiosamente, ele foi o único a abraçar inteiramente as novas tecnologias digitais para criar o universo de Alice, o Coelho, o Chapeleiro Maluco e a Rainha de Copas. Tanto Anderson quanto Jonze, em cartaz este mes nos EUA, deram uma muito consciente marcha à ré e optaram por um visual low-tech, à moda antiga. Jonze manipulou minimamente as criaturas monstruosas imaginadas por Sendak, e trabalhou basicamente com atores em trajes especiais, na paisagem maravilhosa do sul da Austrália. Anderson escolheu a stop motion tradicional, sem nenhum acréscimo digital, e quase leva os animadores à loucura com as exigências de rigor nos detalhes do cenário (Anderson é um desses realizadores que se expressa primariamente pela direção de arte…). Além disso, Anderson se recusou a sair de seu apartamento em Paris, e dirigiu o filme à distância, via web, enquanto os animdaores trabalhavam em Londres….
Pessoalmente, nenhum dos dois me fez dizer uau! O livro de Sendak é tão poderoso – uma obra curta e potente que reconhece o poder da imaginação, da raiva e da frustração em toda criança – que mesmo as mais belas imagens do filme (e há muitas) empalidecem por comparação. O livro é poderoso,em grande parte, porque é curto e não explica nada – coisa que o filme é obrigado a fazer, com bem menos sucesso.

O Mr. Fox com a voz de George Clooney e o figurino de um gentleman farmer (como Dahl era) é uma espécie de versão stop motion de qualquer bom filme de Wes Anderson, chiquérrimo, irônico, com uma bela trilha sonora e personagens que falam exatamente como os de… um filme de Wes Anderson (o fato das demais vozes incluírem Bill Murray, Owen Wilson e Jason Schwartzman ajuda…)

E Tim e sua Alice? Só vendo…
