UOL Entretenimento

28/10/2009

This Is It: o sorriso de adeus de Michael Jackson

 

Que grande show teria sido!

Mais que grande – provavelmente o maior comeback desde Elvis em 1968, e com certeza um espetáculo para empurrar de vez os limites do que se pode fazer no palco, na arena do mega-pop. Não direi o que tem lá, o que teríamos visto – não quero estragar a peculiar alegria de quem ainda vai ver o filme.

E esta certeza é apenas uma das tristezas, doces e amargas ao mesmo tempo, que passam pela alma durante os 111 minutos de This Is It, o documentário que Kenny Ortega, diretor do que viria a ser a volta de Michael Jackson aos palcos, costurou a partir do material gravado durante os ensaios. No Chinese Theater de Hollywood– uma das duas estréias simultâneas do filme aqui em Los Angeles- muita gente graúda chorava sem se incomodar em disfarçar. E cada número musical era saudado com aplausos, como se todos nós estivéssemos lá no Staples Center.

As muitas outras tristezas incluem a sensação de perda irremediável, a certeza de que jamais veremos o fruto dos esforços de MJ, Ortega e um brilhante elenco de músicos, dançarinos, diretores de arte, figurinistas, iluminadores, designers de efeitos digitais, físicos e pirotécnicos. A tristeza de saber que este é o ponto final num possível diálogo com um dos artistas pop mais extraordinários do século 20. Quem por acaso  ainda duvidasse do imenso talento que se ocultava naquela vida atribulada, contorcida, muitas vezes estranha como um freakshow mudará de opinião ao ver This is It. Com a completa naturalidade de quem viveu num palco durante a maior parte de seus 50 anos. MJ controla todos os aspectos do espetáculo, cria , corrige e altera o curso de  cada número enquanto está embrenhando em sua execução, ouve cada timbre, nota quando baixo e teclados não estão “funk o bastante”, pede que um riff seja tocado “como se você estivesse saindo da cama”,  mostra aos dançarinos cada posição no palco, sussurra para a guitarrista “agora é seu momento de brilhar”, dispensa um aviso porque “eu sinto quando as luzes mudam atrás de mim” e num de seus únicos momentos de irritação, pede que "The Way You Make Me Feel" seja tocado “como eu escrevi”. E embora esteja sempre dizendo que está “se poupando” em voz e corpo, frequentemente se deixa levar pela magia do momento, e atua como se fosse para valer, arrancando aplausos delirantes da equipe, diminuta platéia no Staples. “Não façam isso comigo”, ele repreende, com um sorriso. “Eu vou embora e esqueço que tenho que poupar minha voz.”

A grande ironia, é claro, é que se Michael estivesse vivo provavelmente não veríamos esta inesperada janela sobre sua alma criativa. O material que compõe o documentário foi feito para sua coleção particular e não para exibição pública, mais um recurso para seu processo de trabalho e não um produto acabado. Ele não gostaria que estivéssemos vendo seus rascunhos – mas para nós, que não temos mais o privilégio de sua companhia, que doloroso prazer ter ao menos esse esboço do que poderia ter sido. E ficar com a lembrança de seu breve sorriso, tão parecido com o do gato de Alice no País das Maravilhas, por um pequeno momento quando as luzes já estão se apagando ao final de “Human Nature.”

 

Por Ana Maria Bahiana às 18h39


26/10/2009

Ricky Gervais, apresentador dos Globos de Ouro

Meus colegas andavam em cólicas discutindo o assunto há semanas, mas finalmente chegaram a um acordo: Ricky Gervais vai mesmo ser o apresentador dos Globos de Ouro 2010. É a primeira vez em 15 anos que a festa tem um apresentador único, ligando cada prêmio - normalmente um sortimento de astros e estrelas se desimcumbiam da tarefa.

Meu voto foi a favor : acho Gervais uma figura que tem tudo a ver com o clima descontraído do evento, além de não ser americano, como nós... Achei bacana que, na coletiva que anunciou o fato, Gervais comentou que já tinha sido convidado várias vezes para esse tipo de tarefa, mas sempre dizia não. E que dessa vez disse sim por ser "um prêmio que se preocupa com TV no mesmo nível de cinema, com comédia no mesmo nível de drama, e traz o ponto de vista do mundo."

Por Ana Maria Bahiana às 17h04


O sucesso dos filhos da Bruxa de Blair

E quem diria, na cobiçada semana do Halloween, quando todo mundo lança seus filmes de terror, o menorzinho de todos, Paranormal Activity, saiu coroado como o vencedor da bilheteria.

Essas batalhas pelo primeiro lugar tem se tornado tão lugar comum que me interessam cada vez menos. Mas este caso é diferente: venho seguindo Paranormal Activity desde que foi o sucesso de Slamdance, o festival off-Sundance que se tornou o refugio dos mini (alguns diriam verdadeiros…) independentes. A história até aqui: realizado em 2006 por 15 mil dólares por um designer de videogames de 39 anos, Oren Peli, com amigos atores  improvisando texto e operando a câmera digital em boa parte do filme, Paranormal foi o sucesso do Shriekfest 2007 o festival independente de terror que está mais cult a cada ano que passa. Com um agente a bordo, Paranormal foi para Slamdance e acabou adquirido pela Dreamworks -  depois de ter assustado Steven Spielberg a ponto dele não querer mais nem olhar para a DVD – mas ficou engavetado um bom tempo, na disputa legal que se seguiu com a separação Dreamworks/ Paramount.

Finalmente, este ano, a Paramount colocou Paranormal nas telas, primeiro num circuito de 200 universidades, depois em pequenos cinemas, sempre apoiado por uma fenomenal campanha de marketing viral. O gancho: como seu antepassado A Bruxa de Blair, 10 anos atrás, Paranormal assume com orgulho o clima “feito em casa”, e propositalmente rompe o limite entre real e fantasia. Seu visual cru, de câmera amadora com contador de tempo rodando é o que assusta, criando a impressão de que estamos vendo a documentação, em primeira mão, de uma casa possuída por um ser maligno.

Expandido para 1945 telas esta semana, Paranormal fez 22 milhões de dólares, ultrapassando Jogos Mortais 6 com tranquilidade. Com uma bilheteria total de 63 milhões de dólares, Paranormal Activity pode ultrapassar a Bruxa como o filme mais rentável de todos os tempos.

Peli já assinou contrato para fazer mais um filme no mesmo estilo: Area 51, obviamente sobre alienígenas.

 

Semana que vem Paranormal terá competição exatamente no mesmo departamento, quando estrear The Fourth Kind, outro filme que utiliza material “amador” que supostamente documenta abduções alienígenas numa cidade do Alasca.

O que eu acho interessante: que produções desse tipo seguem o caminho oposto do super-arrasa quarteirão, apertando nossos botões psicológicos não pelo que mostram mas pelo que não mostram (até porque não teriam dinheiro para mostrar…) O que acho perturbador: a tranquilidade com que ficção é embalada como documento, num momento em que, culturalmente, estamos mais acostumados a uma “realidade” manipulada.

E vocês, o que acham?

 

Por Ana Maria Bahiana às 03h27


Sobre a autora

Ana Maria Bahiana é jornalista e escritora, com uma carreira que cobre três décadas de reportagem e comentário de cultura no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet. Leia mais

Sobre o blog

Cinema, origem e espelho do que acontece na cultura do mundo. Comentário, notícias, críticas e todas as conexões que o cinema propõe - música, moda, estilo de vida.

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