UOL Entretenimento

26/02/2010

A verdadeira bomba de Guerra ao Terror seria Nicolas Chartier?

 

A sexta feira em LA amanheceu ameaçando chuva e,  para a Academia, a Summit e Kathryn Bigelow, tempestade. A já famosa gafe de Nicolas Chartier, um dos produtores de Guerra ao Terror (veja no post abaixo) não apenas não para de repercutir como fica pior a cada hora que passa.  Eis o pano de fundo da baixaria:

Chartier, nascido na França mas figura conhecida dos círculos independentes de Los Angeles, já vinha criando caso faz tempo. No processo de desenvolvimento de Guerra ao Terror ele já havia conseguido brigar com o roteirista Mark Boal, um ex-jornalista , gente fina, talentoso. Chartier queria tirar Boal do projeto e por outra pessoa para re-escrever o (agora muitas vezes indicado e premiado) roteiro, e foi preciso Bigelow intervir com firmeza. Chartier acabou proibido de aparecer no set de filmagem, tamanho era o mal estar que sua presença causava.

Quando Guerra ao Terror foi indicado ao Oscar, o título apareceu na lista como o crédito “produtores serão anunciados brevemente”; isso quer dizer, educadamente, que os produtores estão brigando entre si mais que torcida em dia de final, em geral porque há pelo menos um candidato ao título que os demais não acham digno de ser chamado “produtor”. Ei, adivinhem quem era o cara? Pois é, Chartier de novo. Tradicionalmente, a Academia permite três nomes como produtores de um filme, mas Chartier insistia em ser o quarto. Esta, na verdade, foi sua primeira campanha de emails junto à Academia: defendendo seu direito de estar entre os indicados, pelo aporte financeiro que trouxe ao filme, usando, ele disse, até mesmo sua casa como garantia de um empréstimo. A Academia cedeu – mais uma vez porque Bigelow intercedeu, dessa vez a favor de Chartier- e Guerra ao Terror foi listado com os quatro produtores que tem agora (e que estão na foto do post lá embaixo).

Portanto, o comportamento do rapaz na arrancada final não é nada fora do comum… O problema é que sua gafe, dessa vez, foi a pior possível, e no pior momento. Principalmente diante do fato de que todo mundo, inclusive a Academia, já tinho sido mais que paciente com ele. Terça feira às 17h termina o prazo para entrega dos votos;  logo depois disso a diretoria da Academia vai se reunir extraordinariamente para estudar e  anunciar a posição oficial com relação a Chartier – e sua punição. “Ninguém quer prejudicar o filme”, me disse um acadêmico, “mas o que ele fez deve servir de exemplo de como não conduzir uma campanha.  Ele deve ser punido, não o filme.”

Veremos quem desarma essa bomba…

Por Ana Maria Bahiana às 18h11


Email pode detonar Guerra ao Terror

 

   Faço uma pausa no post sobre Alice no País das Maravilhas que estava preparando para comentar o assunto que deixou a cidade saltitando mais que pipoca no microondas, hoje: o email que Nicolas Chartier ( na foto, todo feliz com seu BAFTA)  um dos produtores de Guerra ao Terror, desfechou ontem de tarde a vários acadêmicos.  Absolutamente decidido a ganhar votos para o filme de Kathryn Bigelow, Chartier escreveu “precisamos que filmes independentes vençam como vencem os filmes que você e eu fazemos, e se você acredita que Guerra ao Terror é o melhor filme de 2010, ajude-nos”. Em outro ponto do email, ele vai mais fundo: “se você disser a dois amigos para votar (no nosso filme) e não no filme de 500 milhões de dólares, nós vamos ganhar.”

Hoje de tarde Chartier mandou outro email para o mesmo grupo, pedindo desculpas e admitindo ter “violado as regras da Academia” e “contrariado o espírito de celebração do cinema que (o Oscar) representa.”

Com seu email certamente passional e cheio de entusiasmo, Chartier quebrou não apenas uma mas duas regras importantes do atual código de conduta das campanhas, implementado há três anos para por um ponto final no vale-tudo em que estas semanas de fevereiro e março tinham se transformado. Pelo regulamento, apenas “emails informativos” podem ser encaminhados aos votantes, sem “elogios e pedidos de votos para determinados filmes e, do mesmo modo, sem ofensas e deméritos aos demais concorrentes.” Como Chartier não apenas puxou a brasa para sua sardinha bélica mas também deu uma cacetada nada leve em Avatar, o “filme de 500 milhões de dólares”, a coisa ficou feia.

 E poderia ter ficado pior, não tivesse a Academia adotado uma postura conciliatória. “Assim que o problema chegou ao nosso conhecimento, ligamos para Nicolas e explicamos as irregularidades de seu email”, disse Leslie Unger, a vp de comunicações da Academia. “Ele prontamente compreendeu e está trabalhando conosco para reparar o erro.” Um porta voz da Summit, distribuidora de Guerra, passou o dia pondo panos quentes na crise, ligando para os votantes e mandando um papo na linha “ nada demais, não é? Apenas um jovem produtor inexperiente, entusiasmado com sua primeira indicação ao Oscar.”

Ok, em seus 30 e muitos anos, Chartier pode ser jovem mas dificilmente poderia ser chamado de inexperiente, com sua década e trocados de labuta em vendas internacionais e captação de recursos…. Mas a principal questão não é nem essa e sim será que seu email vai, ao contrario de suas intenções, prejudicar Guerra ao Terror, com muita gente fazendo a linha “ah, agora mesmo é que eu não voto nele”? E, o que está intrigando muita gente: como Nicolas sabia exatamente para quem mandar o email? O texto menciona especificamente alguns dos votantes mais influentes,  pedindo que eles sejam contactados com pedidos internos de votos. Quem vazou a informação? Essas e outras estão ocupando msms e caixas de mensagem agora à noite aqui em LA...

 

 

Por Ana Maria Bahiana às 00h46


21/02/2010

Porque Guerra ao Terror vai ganhar o Oscar

 

A turma de Hurt Locker e seus Baftas: o roteirista Mark Boal, Kathryn Bigelow e os os produtores Greg Shapiro e Nicolas Chartier

Com a dupla vitória neste fim de semana nos prêmios da Writers’Guild e da British Academy of Film and Television (BAFTA), uma coisa ficou clara para mim: The Hurt Locker/Guerra ao Terror vai levar algumas das maiores categorias do Oscar, inclusive melhor filme.  Para Avatar vão ficar praticamente todas as categorias técnicas : direção de arte, fotografia, montagem sonora,  mixagem sonora, montagem, efeitos.

Notem bem: os BAFTA não tem peso direto , importante, sobre os Oscars. O pool de votantes muito raramente se sobrepõe, poucos integrantes da BAFTA também são da AMPAS. Mas é um prêmio que os acadêmicos daqui levam a sério e, na hora da indecisão para cravar votos, pode fazer muita diferença. Os prêmios da WGA tem o mesmo impacto dos das outras Guildas- basta os votantes repetirem suas escolhas para termos um número substancial de votos para Hurt Locker na categoria roteiro original.

Muita gente por aqui ainda duvida do favoritismo de Hurt Locker, e muitos mencionam uma teoria corrente: que o novo esquema de votação na categoria melhor filme pode levar a uma zebra histórica. Explico: com a expansão para 10 indicados, os votantes agora têm que indicar, nas cédulas, seus favoritos de 1 a 10. No caso de um título conseguir a maioria (metade dos 5 800 votos, mais 1) dos primeiros lugares, pronto, aí está o Oscar. Caso isso não aconteça, o último colocado em número de votos é eliminado e os votos de  segundo lugar de quem votou nele são distribuídos pelos 9 restantes. O processo se repete até haver uma maioria. O objetivo, segundo a Academia, é criar um voto por consenso, um voto que reflita a escolha média dos 5 800 votantes. Os teóricos da zebra garantem que, sendo Avatar e Hurt Locker filmes polarizantes, com defensores e detratores igualmente apaixonados, o novo sistema de apuração é capaz de dar maioria para um terceiro filme.

Eu, respeitosamente, discordo. Os filmes que disparam no final da corrida do ouro são, em geral, aqueles que, transcendendo índices mínimos de excelência (que, espera-se, sejam o essencial para sequer entrar na lista dos escolhidos) falam de algo mais, algo maior, algo que tem a ver com o estado de espírito do momento, nos EUA. Ano passado, Quem Quer Ser Um Milionário falava de esperança em situações desesperadoras, acenando com algum possível final feliz para a crise econômica. Este ano, Kathryn Bigelow ofereceu o primeiro grande filme de guerra da invasão do Iraque, um drama de proporções humanas que fala fundo a uma nação exausta de um ciclo bélico que, como o do Vietnã, parece não ter nem fim nem solução. Como já mencionei aqui, Avatar leva a mesma reflexão ao plano da mitologia pop e, por isso, tem um apelo muito mais universal – basta ver sua bilheteria, ou , entre muitas outras, esta imagem, da revista Time desta semana, documentando um protesto de palestinos contra o muro que Israel está construindo na Faixa de Gaza.

Mas, mesmo com números cada vez maiores de acadêmicos do mundo todo, a Academia ainda pensa e reage emocionalmente como a entidade norte-americana que é. E por isso…

Por Ana Maria Bahiana às 22h53


Sobre a autora

Ana Maria Bahiana é jornalista e escritora, com uma carreira que cobre três décadas de reportagem e comentário de cultura no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet. Leia mais

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Cinema, origem e espelho do que acontece na cultura do mundo. Comentário, notícias, críticas e todas as conexões que o cinema propõe - música, moda, estilo de vida.

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