UOL Entretenimento

29/05/2010

A última jornada de Dennis Hopper- boa viagem, easy rider

 

DENNIS HOPPER, 17 de maio de 1936- 29 de maio de 2010

"Sou apenas um caipira de Dodge City,  neto de fazendeiros. Pintar, atuar, dirigir, fotografar para mim eram apenas parte de ser artista. Foi assim que ganhei a vida e fiz dinheiro. E me diverti. Não foi uma vida ruim."

Por Ana Maria Bahiana às 15h47


24/05/2010

Mil e uma noites com Lost: this is the end, beautiful friend

 

 

“This is the end/ beautiful friend/ of everything that dies, the end”

(The End - The Doors)

 

“And in the end the love you make is equal to the love you take”

(The End- The Beatles)

 

Vocês já perderam alguém importante na vida de vocês? Eu já . Mais do que posso contar com calma. Para qualquer pessoa que já perdeu alguém importante em sua vida, ou que já teve que enfrentar cara a cara sua própria mortalidade, o episódio final de Lost, no ar ontem as 21h aqui nos EUA, foi um banquete altamente satisfatório e catártico.

Não, as grandes perguntas não foram respondidas – o que, como explico aqui neste texto da UOL TV é, antes de mais nada, um modo muito inteligente e orgânico de manter a mitologia da série viva ab aeternum (para citar outro pedaço da mitologia). Mas A grande pergunta que os show runners Damon Lindelof e Carlton Cuse decidiram abraçar neste fim de série – a própria natureza humana e seu destino – foi completamente respondida, com a eficácia dos bons contadores de história , em volta da fogueira, desde o princípio dos tempos.

Escrever para TV fechada é fácil. (Mentira: é difícil, tão difícil quanto produzir qualquer boa obra audiovisual. ) Difícil mesmo é escrever para TV aberta , com o nível de sofisticação e profundidade que Lost atingiu, consistentemente, nestes seis anos. Escrever para TV aberta durante seis temporadas é ser Scheherazade eternamente adiando a decapitação por ordem do soberano mal humorado e todo poderoso, insatisfeito com os índices de audiência, os indicadores demográficos e o retorno dos anunciantes. Ser capaz de tirar uma história de dentro de outra história de dentro de outra história, fiel ao princípio da narrativa que deu partida a tudo mas capaz de manter o sultão feliz é feito para poucos.

No processo dessas mil e uma noites na Ilha, a visão inicial de JJ Abrams, possivelmente mais Além da Imaginação e Arquivo X do que Livro Tibetano dos Mortos, sofreu as transformações necessárias para sua sobrevivência. O mito da Ilha, construído para servir de base à narrativa e aos arcos dos personagens, tornou-se menos importante do que os personagens em si. Lost estreou numa época difícil – depois do 11 de setembro, tendo como plateia uma sociedade cínica, paranóica,fracionada e profundamente ferida. A virada que Carlton Cuse e Damon Lindelof propuseram conduziu a série na direção de sua humanidade , e não daquilo que era extra ou sobre-humano. É possível fazer uma indagação filosófica sobre o sentido da vida, 50 minutos por semana, três meses por ano, durante seis anos? Por incrível que pareça, é. E em TV aberta.

O que comoveu e permaneceu do último episódio de Lost – além de seu magnífico roteiro, escrito  com enorme rigor de estrutura e o tipo de humor entre-dentes que estava fazendo falta na série, ultimamente (“não acredito em muita coisa, mas acredito em fita adesiva”, foi minha fala favorita) – foi a sinceridade com que abraçou o humano em todos nós, dos seus criadores a seus personagens e a toda a platéia.  Se aprendermos a viver juntos, não morreremos sozinhos, foi o que restou depois que o último olho se fechou na última e maravilhosa cena. É o oposto do que tudo a nossa volta parece estar dizendo. As  forças que nos separam, dividem e isolam não são tão poderosas quanto as forças que nos fazem procurar o Outro e reconhecer nela ou nele sua luz interior, igual à nossa: aloha, e namastê.

 Uma palavra final sobre o magnífico trabalho de Michael Giacchino, tão integral ao impacto de Lost que, nos roteiros, suas entradas eram anotadas como “O Giacchino” (assim: “aqui, O Giacchino aumenta a tensão”; “tapete triste de O Giacchino por baixo do diálogo”).  A música  em Lost era velha-escola, gravada ao vivo no estúdio Eastwood do lot da Warner, com uma orquestra de músicos sinfônicos experientes, que acabou conhecida como Orquestra Lost. Era ao mesmo tempo incrivelmente avant garde e profundamente romântica,  respeitosa do trabalho dos atores mas, ela mesma, um ator, adicionando sua voz – a harpa sinistra, os violinos e metais abstratos, o piano pensativo – ao coro dos desempenhos. Mais uma vez, uma lição concreta de colaboração, comunidade, estar junto.

Namastê!

Por Ana Maria Bahiana às 21h02


Os vencedores e os vencedores de Cannes 2010

Uma certeza: Bardem; uma possibilidade: Binoche

 

Pela minha experiência de Cannes, posso dizer que há dois tipos de vitoriosos que emergem da Croisette: os que saem do Palais com palmas e prêmios, e os que saem do festival (e do mercado) com portas abertas para um salto quântico em suas trajetórias. Nem sempre as duas listas são a mesma lista: um olhar rápido sobre a lista dos palmarés passados revela o domínio absoluto de Cannes como chama-piloto de filmes e temas que incendiavam debates e desejos nos anos 1960 , 1970, 1980. A partir do final do século 20, a divisão de rumos entre os escolhidos do júri e os que avançaram pelo mercado mundial começa a ficar mais acentuada. Eu me recordo em detalhes, por exemplo, da batalha que foi para o excelente Underground, de Emir Kusturica, ser visto além da Croisette. Ou do ano em que os filmes mais  longevos de Cannes  - O Tigre e o Dragão e Billy Elliot -  passaram ao largo da premiação.

Há explicações compridas e complicadas para essa trajetória, mas vou tentar resumir do modo mais simples: tudo mudou no mercado de produção, distribuição e consumo de cinema. Cannes, como Javier Bardem tão bem lembrou na coletiva pós-premiação, ainda é “a opinião de nove pessoas”, e o quanto essa opinião pode determinar o futuro de um filme (ou de um ator, ou de um diretor) é algo que foge inteiramente aos padrões de gosto e sensibilidade até mesmo destes ilustres e ecumênicos jurados. Um filme, mesmo um filme laureado no mais respeitável e respeitado festival do mundo, só tem sobrevida garantida com um contrato internacional de distribibuição. E estes, há algum tempo, estão cada vez mais difíceis. É uma realidade tristissima que a sempre ótima Anne Thompson analisa em sua última coluna – da safra 2010, por enquanto, os únicos que tem vida garantida além de seus países de origem são Biutiful, de Alejandro Gonzalez Iñarritu (via Focus) e Des Hommes e des Dieux, de Xavier Beauvois (via Sony Classics). Mais aquisições virão, com certeza, mas nada mais é garantido como nos dourados anos 1960-80.

Daí a importância cada vez maior, ano a ano, da temporada ouro, que garante imensa divulgação internacional a muitos títulos que de outra forma ficariam restritos ao circuito dos festivais.  Se seus países de origem não fizerem besteira, poderemos ver Tio Boonme, Copie Conforme, La Nostra Vita, Ano Bissexto e Poetry na disputa por prêmios internacionais, aumentando sua visibilidade.

Tendo dito isto, quem são os vencedores de Cannes 2010 que já transcenderam a Croisette? Alguns não ganharam prêmio oficial algum: Another Year, de Mike Leigh, campeão da  crítica e do buzz da indústria, com distribuição garantida pela Focus, é na verdade o filme com mais chances de um modo geral, não apenas como título e diretor, mas também para seus atores Lesley Manville e Jim Broadbent; o solitário americano Fair Game de Doug Liman deve emplacar Naomi Watts; Javier Bardem (por Biutiful) foi a primeira unanimidade do zum-zum do meio, e já o considero na pole para o segundo semestre. Juliette Binoche pode segui-lo, mas depende do que vai acontecer com Copie Conforme , sua capacidade de ser visto fora do circuito festivalier.

Não é muito. Mas já é um começo.

 

Por Ana Maria Bahiana às 23h02


Sobre a autora

Ana Maria Bahiana é jornalista e escritora, com uma carreira que cobre três décadas de reportagem e comentário de cultura no Brasil e no exterior, em imprensa, rádio, televisão e internet. Leia mais

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Cinema, origem e espelho do que acontece na cultura do mundo. Comentário, notícias, críticas e todas as conexões que o cinema propõe - música, moda, estilo de vida.

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